sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Toda alma de artista quer partir

"Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função
Rezar, cuspir
Surgir repentinamente
Na frente do telão
Mais um dia, mais uma cidade
Pra se apaixonar
Querer casar, pedir a mão

Saltar, sair
Partir pé ante pé
Antes do povo despertar
Pular, zunir
Como um furtivo amante
Antes do dia clarear
Apagar as pistas de que um dia
Ali já foi feliz
Criar raiz
E se arrancar

Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar

Quando não se tem pra onde ir

Chegar, sorrir
Mentir feito um mascate
Quando desce na estação
Parar, ouvir
Sentir que tatibitati
Que bate o coração
Mais um dia, mais uma cidade
Para enlouquecer
O bem-querer
O turbilhão

Bocas, quantas bocas
A cidade vai abrir
Pruma alma de artista se entregar
Palmas pro artista confundir
Pernas pro artista tropeçar

Voar, fugir
Como o rei dos ciganos
Quando junta os cobres seus
Chorar, ganir
Como o mais pobre dos pobres
Dos pobres dos plebeus
Ir deixando a pele em cada palco
E não olhar pra trás
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus"

Na carreiraChico Buarque & Edu Lobo

- É o tipo de texto que eu queria ter escrito, mas não fui presenteada com tamanha genialidade. Resta-me ouvir, ler, apreciar, absorver.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Tatuagem

Eu sei que nunca vou te esquecer. Eu sei com a mesma certeza que sei que o sol vai nascer amanhã, eu sei do mesmo jeito que sei que corre sangue nas minhas veias. Eu sei que você está desenhado em mim como tatuagem. Eu sei, sempre soube. Tudo o que eu disse sobre te arrancar de mim, era inverdade, eu precisava acreditar nisso pra seguir em frente, sem chorar ao olhar para trás. Mas eu sei, você sabe, que cada vez que ouço tua voz, meu sangue gela, minha garganta seca, o coração dispara. Ele avisa que tudo vai começar de novo, ele me diz que isso não vai parar. Lembra-me que você é minha doença, e que essa ferida nunca vai cicatrizar. E eu sei de tudo isso. Eu sei que nunca vou te esquecer.


CARVALHO, Pâmela.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Om Mani Padme Hum


Boa noite. Boa tarde. Bom dia. Faço uma breve postagem visando ser porta-voz de mim. O blog está com um aspecto um tanto afeminado e adolescente, mas eu realmente gostei desse design - risos - mesmo que ele seja um pouco... Rosado. Mas vá lá, minha vida está um pouco rosada. Um rosa bebê, que nada tem a ver com a lenda de que esta seja a cor do amor. Do amor... Bem, do amor bom, inundo-me. Apenas do bom. E cerco-me de boas almas, bons livros, bons discos. E muito pensar. É um dos períodos nos quais meu cérebro está mais ativo. Borbulham idéias, pipocam pensamentos, e caem no chão feito pedaço de nuvem. Tudo regado a muita música, senão não seria eu. Me vou, é hora. Preciso dormir, já sinto cheiro de dia sol.


CARVALHO, Pâmela.

Hoje não vou reciclar.

Ah, foi hoje. Na verdade era pra ter sido há muito tempo, mas foi hoje. Foi hoje dentro de mim. Como se um balde de água benta inundasse meu corpo todo. Por dentro. Por fora. Por dentro. Nessa madrugada fria, sento-me novamente para escrever pra você. Não exatamente pra você. Pra mim. De mim pra mim. Eu mereço. E eu não espero mais que você bata na porta, que o telefone toque, que uma carta chegue. Eu não espero mais. Eu devia escrever uma carta e lhe mandar pelo correio, relatando formalmente tudo isso. Mas não, isso me daria mais trabalho e um custo mínimo que não paga o que me deve. É pouco. E é muito pra quem você é. Eu olho pra tudo aquilo e me pergunto: - Como? Como eu pude? Minha sanidade, onde estava, hein? É duro, viu. Não, não, eu não estou com raiva de você. Veja este sorriso nos meus lábios? Vê? Não há raiva, não há amor, não há saudade. Não há nada. Nada atual. Há as lembranças, mas mesmo estas vão escasseando e em breve será difícil de reconhecer seu rosto nas fotografias. Creio que não há um culpado para isso. Não há nada errado, está tudo bem. Há tempos eu não dizia isso. Está tudo bem! Você me ouve? Ah, que delícia. Eu posso sentir o gosto do "Não me importar com você". É bom. Me lembra o doce de banana da vovó. Tem gosto de vida, sabe? Vamos falar verdades, vamos jogar sorrisos pro ar. Eu estou livre. Livre livre livre. O que você faz não me atinge. O que você diz não me afeta. E não é como aqueles monólogos de auto ajuda do tipo: Eu me amo, eu sou bonita, eu posso, eu consigo. É uma chuva de realidade molhando a sua cara e lavando toda a lama. É uma faxina na casa toda, recolhendo o lixo. Guardei o que me fez bem, lembrarei o que foi bom. E o resto, amassa e joga fora.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Café I

É, eu realmente preciso de um café. Ou dois, ou três, ou mil. E uma dose de whisky, talvez... Algo bem forte e quente pra fazer um trio com a realidade e com o frio esta noite. E vamos nós, falar sobre mim hoje. Tanta coisa aconteceu nesses últimos tempos. Tanta coisa eu aprendi. É como se eu tivesse vivido 10 anos em 3 meses. E quando se vive dez anos extras, se adquire cansaço, cabelos brancos. Não necessariamente sabedoria, claro. E foi tanta coisa, tanta gente. Um entra e sai feito quarto de bordel. Uma série de confusões e um mesmo ponto de partida. E um mesmo ponto de chegada. E um mesmo curso de rio. Mas, alguma coisa mudou. Alguma coisa saiu do lugar e não sabe como voltar. Talvez aquele lugar nem exista mais. Serei breve hoje - as coisas mudam mesmo, hein. Ou não. - porque preciso viver. Vivi dez anos, vivi de novo, vivi três vidas. E nasci de novo. E nascerei amanhã. E depois e depois. Sem esquecer toda a bagagem, toda a bobagem. Sem esquecer de viver.

Traz um café aí por favor.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

2 (Parte I)

Enfim sós. Cada qual na sua solidão, necessária solidão. Vou escrever um samba sobre o fim. Uma baladinha ou talvez até um metal melódico. O importante é retratar, re-tratar esse momento. Você se lembra do começo? Ah, eu lembro. De toda a loucura que foi começar, da brevidade daquele começo, do começo daquela brevidade. Droga, era pra eu escrever sobre o fim. Do começo falo depois, mais tarde, em outra divagação noturna. Corrijo-me, eles se entrelaçam. Apesar de não entender exatamente tudo, creio que há explicações no começo, no meio, no que virá. Mudamos. Ambos. Do começo até o final nos metamorfoseamos e negamos quem um dia juramos ser. Em silêncio. Só de você pra mim. E foi recíproco. O nosso "nós" se desintegrou como um castelo de areia e nós o assitimos desmoronar. Eu ainda tentei reconstruir, remoldar, mas sozinha foi difícil, falhei. E nessa falha me vi sozinha. Sozinha a dois, a pior de todas as solidões. Você estava do meu lado mas não me oferecia companhia, não me oferecia sua alma, seu coração, seu eu. Tentei novamente e falhei mais uma vez.
Apesar de consumar um fato em um momento de tensão psicológica, minhas pré análises não levavam a outra coisa. Eu analisava tudo, eu queria encontrar um motivo. E vou lhe contar um segredo: - Eu só queria um pretexto pra voltar atrás. Eu não queria fazer tudo aquilo.
Se lhe restarem dúvidas do motivo de minhas lágrimas, saiba que choro por tudo que não tivemos, por tudo que não vivemos, por tudo que não realizamos. Pelos lugares onde não fomos, pessoas que não conhecemos, comidas que não degustamos, brigas que não tivemos. Choro pelo que não foi, pelo não ser. Não sei. Hoje eu não estou triste. Não estou com raiva. Nem mágoa há em mim. Há um conjunto de lições que aprendi em todo (todo?) esse tempo. Você foi um parágrafo na minha vida, e lhe dedicarei alguns em meus rabiscos e rascunhos. Pega seu atalho que eu sigo a minha estrada. Nos encontramos no final.

E a última.

   Eu tinha dito à ele que não chegaríamos a lugar nenhum. Não daquela maneira. Ele assentiu com a cabeça, e pareceu concordar. Não concordou. Disse que tudo iria mudar e que provavelmente nossos problemas seriam causados pela minha instabilidade. Sempre a instabilidade. Que seja assim.
Quando cheguei, ele estava sentado na poltrona e lá ficou. Disse boa noite sem me olhar, é claro, não podia perder o futebol. Se o Pet faz um gol e ele não vê porque eu estava na frente da TV, ali acabaria o mundo.
Fiz meu café. Ia ser uma daquelas madrugadas longas, sofríveis, com pilhas de livros e litros de cafeína. Ofereci. Ele não aceitou. Continuou olhando o jogo. Juro que parecia que ele estava colado no sofá e com um imã ligando seus olhos ao aparelho televisor. Toca o telefone. Ele se levanta, atende e fica cronometrados 58 minutos conversando animadamente. Do escritório eu pude ouvir as gargalhadas. Ninguém era muito divertido. Digo isso porque quando questionado, ele me respondeu prontamente que falava com ninguém. Ninguém com certeza era mais engraçado e divertido do que ele.  
Passaram-se horas, eu com meu café, e ele dormindo. Era esse o quadro. Terminei minhas leituras e me sentei do lado dele na cama. Ele não estava dormindo, como eu imaginava. Virou, me olhou e perguntou:
 - O que é?
E eu respondi: - Vamos conversar?
Ele: - Agora?
Eu: É.
Era necessário que tudo fosse mecanizado, simples, sintético. Comecemos:
- Você sabe que essa situação está insustentável. Nós não nos falamos, não nos tocamos, evitamos nos olhar. Sabemos que acabou e não vai adiantar ficar procrastinando isso. Nem vai doer mais. Estamos vacinados contra tudo isso. Estamos imunes um ao outro. Compreendo que você esteja acostumado com o meu café, com o meu cheiro, com os meus livros empilhados e filmes em preto e branco. O problema é que você nem vai se sentir vazio sem isso tudo, porque você já está vazio. Nossa fonte já secou. Façamos assim: O disco dos Beatles eu levo agora, vou precisar dele aonde quer que eu esteja. O faqueiro francês fica pra você, foi presente da sua mãe, e nossas alianças... Eu gostava delas, apesar de terem apenas valor simbólico. Nada era muito oficializado. Bem, cada um decide o que fazer. Amanhã venho de carro e vou levando o resto das coisas. Deixo a cópia de chave debaixo do tapete quando terminar. Tudo bem pra você?
   Houve um longo silêncio e um desconforto vivo, pulsante, tangível. Ele não disse nada. Sentou e abaixou a cabeça. Foi a primeira vez que eu o vi chorar. E a última.